quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Só a Arte Sacra pode ser Cristã?

Só a Arte Sacra pode ser Cristã?

Pelas altas janelas, guarnecidas de vitrais, entra uma luz abundante mas suave, que se reflete no soalho, no metal polido das armaduras e das panóplias, no bronze e no cristal dos imensos candelabros, e parece atingir a custo as nervuras e pinturas do teto.

Sala de um castelo medieval impregnado de espírito cristão

Sala de um castelo medieval impregnado de espírito cristão
As colunas, fortes e delicadas, se abrem ao alto como imensas palmeiras que protegessem a sala com sua ramagem de pedra, de linhas coerentes, nítidas e suaves.

A sala é fortemente impregnada de um ambiente peculiar, que convida a um repouso sem ócio nem dissipação, um repouso todo feito de recolhimento, gravidade, equilíbrio e força.

Mount Stuart Sala do Castelo
As armaduras, os veados empalhados, enriquecem este ambiente com o eco das proezas praticadas na caça e na guerra.

Os lambris de madeira trabalhada quebram com sua delicadeza e aconchego o que a austeridade da pedra talvez tivesse de excessivo. Ao fundo, sobre uma peanha, a imagem de um Santo atrai o pensamento para o Céu.

Sem dúvida esta sala espelha uma mentalidade, que poderá agradar a uns, desagradar quiçá a outros, mas que de um modo ou de outro soube dispor admiravelmente das cores e das formas para se exprimir.

É uma sala de uso civil quotidiano. Apresenta o ambiente em que o espírito de nossos maiores se sentia à vontade para viver a vida corrente.

A Sainte Chapelle de Paris construída por São Luiz para conter alguns espinhos da coroa de Nosso Senhor Jesus Cristo

A Sainte Chapelle de Paris construída por São Luiz para conter alguns espinhos da coroa de Nosso Senhor Jesus Cristo
A Sainte Chapelle de Paris, construída no séc. XIII por S. Luis IX, Rei de França, para conter alguns espinhos da coroa de Nosso Senhor Jesus Cristo, exprime a mesma mentalidade, não enquanto entregue à vida diária, mas enquanto voltada para a prece.

Sainte Chapelle, parte inferior
A nota de delicadeza atinge ao sublime. Nem por isto a força, o equilíbrio, a gravidade, o recolhimento perdem algo da sua plenitude. Eclesiásticos, artistas, peregrinos de lodos os séculos têm visto na Sainte Chapelle, no ambiente que nela palpita, na mentalidade expressa em suas linhas, suas cores, suas formas, sua configuração geral, a expressão arquetípica da alma cristã.

A alma cristã deixa uma marca inconfundível com que exprime tudo quanto faz

Cristã é a sala como cristã é a capela. E isto não só pelo efeito das imagens e símbolos religiosos que ali se encontram, como pelo ambiente que ali se respira, pela mentalidade que fica subjacente a este ambiente.

De onde se chega a uma noção mais ampla. Uma obra de arte não é cristã pelo simples fato de estar coberta de símbolos de nossa santa Religião, como um homem não se faz frade pelo simples fato de vestir burel.

É preciso que seja católica a alma que na obra de arte palpita, para que esta se possa dizer genuinamente cristã.

E o ambiente cristão não é susceptível de impregnar apenas um edifício destinado ao culto, mas qualquer local que tenha em sua configuração a marca inconfundível com que a alma cristã exprime tudo quanto faz.

(Plinio Corrêa de Oliveira em Catolicismo, Dezembro de 1952)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Velhice: Decrepitude ou Apogeu?

Velhice: Decrepitude ou Apogeu?

Em número anterior (veja aqui), fizemos o confronto entre as fotografias de Churchill moço e velho, para mostrar como se engana o mundo moderno quando só vê no envelhecimento uma decadência.

Quando se prezam mais os valores do espírito, envelhecer é crescer

Quando se sabe prezar mais os valores do espírito do que os do corpo, envelhecer é crescer no que o homem tem de mais nobre, que é a alma, se bem que signifique a decadência do corpo, que é apenas o elemento material da pessoa humana.

E que decadência! Bem pode ser que o corpo perca sua beleza e seu vigor. Mas ele se enriquece com a transparência de uma alma que ao longo da vida soube desenvolver-se e crescer. Transparência esta que constitui a mais alta beleza de que a fisionomia humana seja capaz.

Rosa Virginia Pelletier (Santa Maria Eufrasia Pelletier)
Santa Maria Eufrásia Pelletier, nascida na Vandéa, França, em 1796, fundadora de uma Congregação docente feminina, faleceu em 1868. Sua festa se celebra no dia 24 de abril.

Nada do que significa formosura lhe faltou na mocidade: a correção dos traços, a beleza dos olhos e da cútis, a distinção da fisionomia, a nobreza do porte, o viço e a graça da juventude. Mais: o esplendor de uma alma clara, lógica, vigorosa, pura, se exprimia fortemente em sua face. É o tipo magnífico da donzela cristã.

Santa Maria Eufrasia Pelletier
Ei-la em sua ancianidade. Do encanto dos antigos dias resta apenas um vago perfume. Mas outra formosura mais alta brilha neste semblante admirável.

O olhar ganhou em profundeza; uma serenidade nobre e imperturbável parece prenunciar nele algo da nobreza transcendente e definitiva dos bem-aventurados na glória celeste!

O rosto conserva o vestígio das batalhas árduas da vida interior e apostólica dos Santos. Atingiu algo de forte, de completo, de imutável: é a maturidade no mais belo sentido da palavra.

A boca é um traço retilíneo, fino, expressivo, que traz a nota típica de uma têmpera de ferro. Uma grande paz, uma bondade sem romantismo nem ilusão, com algum resto da antiga beleza, esplende ainda nesta fisionomia.

O corpo decaiu, mas a alma cresceu tanto, que já está toda em Deus

O corpo decaiu, mas a alma cresceu tanto, que já está toda em Deus, e faz pensar na palavra de Santo Agostinho: nosso coração, Senhor, foi criado para Vós, e só está em paz quando repousa em Vós.

Quem ousaria afirmar que para Santa Maria Eufrásia, envelhecer foi mesmo decair?

(Plinio Corrêa de Oliveira em Catolicismo, Novembro de 1952)
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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Pequeno Sintoma de uma Grande Transformação

Pequeno Sintoma de uma Grande Transformação

Até alguns anos atrás, o uniforme da Guarda Civil de São Paulo compunha-se de dólmã, calça e boné de casimira azul-marinho.

Mais tarde, surgiu farda de verão, de brim acinzentado, obedecendo em linhas gerais ao mesmo feitio da anterior, exceção feita do capacete branco introduzido só para dirigir o transito.

Por fim, recentemente adotou-se novo uniforme para o uso diário, do mesmo brim, mas reduzido a calça e camisa, suprimindo-se o dólmã.

Os três desenhos desta página sintetizam, pois, a história do traje de uma corporação brasileira nos últimos anos.

Por detrás da transformação das formas e das cores, a transformação mais subtil das mentalidades, dos estados de espírito e dos princípios

O espírito desta secção consiste em procurar, por detrás e por cima da transformação evidente das formas e das cores, a transformação mais subtil das mentalidades, dos estados de espírito e dos princípios, que nelas se simbolizam e se exprimem.

Analisando-se a esta luz os três fardamentos que hoje reproduzimos, os resultados a que se chega são claros.

Segundo a doutrina da origem divina do poder, aqueles que exercem legitimamente funções de mando fazem-no em nome de Deus.

O detentor legítimo da autoridade - qualquer que seja seu titulo ou seu cargo - tem um poder que lhe vem do alto, que transcende do próprio homem, o que dignifica quem manda e quem obedece. Esta transcendência deve exprimir-se por formas sensíveis.

Os símbolos do poder devem ser próprios a incutir respeito

Os símbolos do poder devem, portanto, ser próprios a incutir respeito. E quando a natureza do cargo comporta o uso de traje próprio, deve este ter uma distinção correspondente às funções de quem o veste.

Este conceito se aplica, por excelência, evidentemente, às magistraturas supremas: mas em grau menor aos cargos que de algum modo, embora muito secundariamente, participem da autoridade pública.

Pelo contrario, segundo a doutrina requintadamente revolucionária, da soberania popular, como o poder vem de baixo, não confere nenhuma superioridade.

E, portanto, os que o exercem devem usar símbolos e - se for o caso trajes - que manifestem sua absoluta igualdade com os de baixo.


O primeiro uniforme da Guarda Civil de S. Paulo, por sua seriedade, distinção, sobriedade, conformava-se com o princípio que vimos de enunciar.

Já o segundo traje traduz uma preocupação manifesta de atenuar as notas de superioridade do primeiro.

E finalmente o terceiro parece ter requintado em relação ao segundo. Pequena manifestação do grande sopro de naturalismo pagão e igualitário que nestes dias de cataclismo vai varrendo o universo.

(Plinio Corrêa de Oliveira em Catolicismo, Outubro de 1952)
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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Dois Ideais Femininos

Dois Ideais Femininos

Maria Clotilde de Sabóia Napoleão
A Serva de Deus Maria Clotilde de Sabóia Napoleão (1843-1911), insigne não só por seu nascimento e por sua alta distinção pessoal, como também por sua virtude, será talvez elevada às honras dos altares, pois já se processa a causa de sua beatificação.

Pela nobreza de seu porte representa ela o tipo característico da dama cristã no século passado, toda feita para a vida de sacrifício, principalmente no lar, para as grandes dedicações da mãe e da esposa segundo o espírito da Igreja.

Apesar de muito feminina, espelha em seu todo uma firmeza notável, que não exclui, aliás, uma grande bondade. Em suma, pode ser tida como expressão autentica do verdadeiro ideal feminino.
Ana Pauker
Ana Pauker representa o arquétipo da mulher conformada segundo as normas do comunismo.

Grosseira, masculinizada, não denotando nem o recato nem a dedicação que a situação da mulher na sociedade exige, é a virago desabrida e sem sentimentos, própria para a era de brutalidade e mecanicismo cujo advento o neo-paganismo moderno prepara.

(Plinio Corrêa de Oliveira em Catolicismo, Setembro de 1952)
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terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Traje, Espelho de uma Época

O Traje, Espelho de uma Época

O traje, de um ponto de vista meramente material, isto é, quanto ao serviço que presta ao corpo, não é senão um agasalho. Quando muito se lhe pode reconhecer a função de proteger um certo pudor que brota das profundezas do instinto.

Mas quem sabe que o homem não é só matéria, sabe também que o traje não é apenas um agasalho, que segundo a ordem natural das coisas ele deve também prestar serviço ao espírito.

Que serviço? Por uma propriedade que não é apenas convencional ou imaginativa, mas que crava raízes no âmago da realidade, certas formas, certas cores, as qualidades de certos tecidos, produzem no homem determinadas impressões, que são mais ou menos as mesmas para todos os homens.

Impressões e, pois, estados de espírito, atitudes mentais, em certos casos todo um pendor da personalidade.

É este um dos fundamentos da arte. Assim pode o homem, por meio do traje, exprimir até certo ponto sua personalidade moral, o que facilmente se pode notar no vestuário feminino, tão apto a espelhar o feitio mental da mulher.

O traje profissional tende a exprimir mais do que o feitio mental de um indivíduo, o feitio mental próprio à profissão: será sóbrio como uma batina de Sacerdote, grave como uma beca de professor, imponente como um manto de Rei, etc.
Porteiro do Banco de Inglaterra
Quando uma época se preocupa em elevar o homem, é sedenta de dignidade, de grandeza, de seriedade, dispõe o vestuário - comum ou profissional - de maneira a acentuar em cada pessoa a impressão desses valores.

Será ou tenderá a ser nobre, digno, varonil, o traje de todo homem, desde o Soberano até o último plebeu. É o que se nota nos trajes antigos.

Publicamos nesta pagina a fotografia de um mero porteiro do Banco da Inglaterra, com suas vestes tradicionais. Seria impossível exprimir e valorizar melhor a modesta mas real parcela de responsabilidades que seu cargo, obscuro mas honesto possui.
trajens contemporaneas
Os outros clichês representam contemporâneos nossos vestidos como o são habitualmente, nas praias e nos campos de certos países, homens de categoria que se prezam de estar em dia com o "progresso".

Estes trajes, como se sabe, tendem a invadir toda a vida: já são francamente admitidos no uso corrente em algumas cidades, como Paris no verão.

Que mentalidade revelam estes trajes? Tudo quanto se pode talvez tolerar num menino... mais nada.

Que oportunidade dão eles a que se espelhe o que a alma de um homem bem formado deve espelhar, em qualquer classe social, isto é, gravidade, senso de responsabilidade, elevação de espírito?

A resposta é óbvia.

"Dize-me como te trajas, e eu te direi quem és". Esta máxima, tantas vezes errada se a quisermos aplicar a cada pessoa individualmente considerada, é bem verdadeira para as várias épocas da Historia.

Dois tipos de traje, duas mentalidades, dois estilos de vida.

Que diferença! E quem ousará dizer que foi para melhor?
(Plinio Corrêa de Oliveira em Catolicismo, Agosto de 1952)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Heresiarcas de Hoje e de Outrora

Heresiarcas de Hoje e de Outrora

O ângulo de visão doutrinário em que nos situamos no confronto de hoje é o de Leão XIII em sua profunda e luminosa Encíclica sobre a História, intitulada "Parvenu à la vingt cinquième année".

Ensina o grande Pontífice que todo o progresso do Ocidente cristão jamais teria existido sem a ação sobrenatural da Igreja.

Foi Ela que elevou a humanidade ao alto nível moral que atingiu na Idade Media; foi Ela que ensinou aos povos os princípios da sabedoria política e social de que decorreu o aparecimento da civilização justamente dita cristã; foi em Seu regaço que a teologia, a filosofia, as artes e a vida de sociedade floresceram.

O protestantismo, a revolução francesa e o comunismo são prolongamentos históricos de uma revolta

A eclosão do protestantismo no século XVI representou a primeira revolta vitoriosa da humanidade contra a Igreja de Deus.

A Igreja prega a submissão da razão à Fé; a subordinação do povo fiel à Hierarquia Sagrada; a pureza dos costumes em sua forma mais sublime, isto é o casamento monogâmico e indissolúvel e a castidade perfeita para os que não vivem no estado de casados.

O protestantismo ensinou a escravização da Fé à razão, do governo eclesiástico ao povo, aboliu o celibato dos clérigos e instaurou o divórcio.

A Revolução francesa foi, no séc. XVIII, o prolongamento do protestantismo. Proscreveu todos os cultos, proclamou a soberania da razão, estendeu o divórcio aos países católicos, e colocou todos os poderes civis na dependência do povo soberano, precisamente como o protestantismo colocara na dependência do povo os órgãos de direção eclesiástica.

O comunismo é, nos séc. XIX e XX o prolongamento e o paroxismo desta tendência: igualdade absoluta até no terreno econômico, ateísmo radical, amor livre. Em suma, três revoluções que são apenas três etapas na marcha do mundo para um abismo profundo.

Como é natural, estas sucessivas catástrofes foram produzindo gradualmente seus efeitos nos ambientes, nos costumes, em todo o transformar-se da civilização. As heresias e os heresiarcas, considerados em ordem cronológica, foram sendo cada vez mais depravados de alma ou de corpo, mais escandalosos, piores.

É que à medida que o processo de decomposição se acentua, mais ativos se tornam seus sintomas. E à medida que a impiedade se torna ou se supõe mais estável em seu triunfo, tanto mais livremente vai mostrando sua verdadeira fisionomia.

personagens do protestantismo por Lucas Cranach senior
Aqui temos, pelo pincel de Lucas Cranach Senior, um grupo de homens com toda a aparência exterior da gravidade, da compostura, do recolhimento: da esquerda para a direita, Lutero, João Ecolampadio, Frederico o Magnânimo, Eleitor da Saxônia, Zwinglio e Melanchton, ou seja, os homens que inundaram de sensualidade a Alemanha, a Suíça, o mundo.

Mas ainda havia entre os próprios hereges resíduos de moralidade, remanescentes de influência católica: o povo não seguiria lideres religiosos que não conservassem algumas aparências de recolhimento e gravidade.

Estes resíduos de influência católica ao que estão reduzidos atualmente, em certos ambientes? Praticamente a zero. E o espírito dos heresiarcas - que é o mesmo em todos os séculos e para todas as doutrinas - se mostra hoje muito mais cinicamente à luz do sol.
father divine e mother divine
Nosso outro clichê mostra um heresiarca do século XX, o famoso "Father divine", que obtém os sufrágios entusiásticos do povinho miúdo de nossos dias, como os obtinha do povinho de seu tempo o demagogo astuto que foi Lutero. O rosto do FATHER DIVINE resplandece da alegria de viver. Todo seu corpo parece saturado de bem-estar. Sua jovem e alva noiva dá idêntica impressão.

É que o espírito de revolta da sensualidade vivia a medo e às ocultas no séc. XVI. E no séc. XX tão grande é sua vitória, que se mostra sem rebuços. A fé, a pureza, estas, infelizmente, se imaginam na contingência de viver às ocultas...

(Plinio Corrêa de Oliveira em Catolicismo, Abril de 1952)
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